quarta-feira, 2 de maio de 2007

Gordura Trans: Tire ela do seu dia-a-dia

Pesquisas e mais pesquisas comprovam que ela põe em risco o coração e dá sinal verde para o diabete. Por essas e outras, está sendo barrada na sua mesa.
É de chorar, mas as delícias que ilustram esta matéria estão no topo de um ranking que representa um atentado à saúde: o dos alimentos ricos na gordura trans, a mais nefasta de todas. Intimamente ligada ao aumento do colesterol e aos conseqüentes danos à saúde, aí incluídos infarto e derrame, essa molécula ainda carrega a fama de facilitar o aparecimento do diabete. Agora, um estudo recente sugere a inclusão da popular barriga de chope no rol das complicações. Assim, a protuberância abdominal tem tudo para passar a atender por um apelido que lhe cai muito bem: barriga trans.
E pensar que foram os macacos, em experiência inédita, que deram a pista para os cientistas avaliarem o impacto dessas gorduras sobre a saúde. O relato é de Lawrence L. Rudel, professor de patologia da Escola de Medicina da Universidade Wake Forest, na Carolina do Norte, Estados Unidos, em entrevista à SAÚDE!. Ao longo de seis anos, ele e seus colaboradores observaram dois grupos desses animais. Ambos foram alimentados com a mesma quantidade de calorias, sendo que 35% delas vinham de comidas gordurosas. A diferença é que um dos cardápios apresentava 8% de trans entre os lipídios, enquanto o outro ingeria esse mesmo percentual proveniente de ácidos graxos monoinsaturados, como aqueles presentes no azeite de oliva por sinal muito saudáveis. Resultado: os pobres símios do primeiro grupo engordaram 4% a mais que as do segundo. Pior: concentraram mais tecido adiposo na região abdominal. E, como já era esperado, ainda apresentaram maior resistência à insulina e maior teor de glicose no sangue. "Esse foi o primeiro estudo com primatas, que têm um metabolismo de gorduras muito semelhante ao dos humanos", contou Lawrence Rudel.Ao que tudo indica, as descobertas da equipe do professor Lawrence L. Rudel, da Universidade Wake Forest, vêm pôr mais lenha na fogueira da síndrome metabólica. Esse conjunto de alterações do organismo, que ganha dimensões de epidemia em todo o mundo e aumenta e muito os riscosde diabete, derrame e infarto, divide a opinião de especialistas quando o assunto é a raiz da encrenca. Para uns é a gordura visceral. Para outros, a resistência à insulina. A julgar pelo estudo americano, a gordura trans está envolvida nessa história até o pescoço, mas por aqui há quem mostre cautela antes de dar um veredicto. É o caso do endocrinologista Amélio de Godoy Matos, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. Ele entende que ainda é cedo para relacionar a gordura visceral humana à gordura parcialmente hidrogenada. "O grupo de macacos que se alimentou dela engordou mais e mostrou maior resistência à insulina, confirmando o que a Medicina já sabe", comenta. "Daí a relacionar a barriga de chope à trans vai uma grande distância. O acúmulo de gordura abdominal não deve ter sido avaliado com o devido rigor durante o estudo."
A confirmação desse elo depende do prosseguimento dos estudos, segundo admite o próprio Lawrence L. Rudel. Pelo sim, pelo não, há motivos de sobra para você pensar duas vezes antes de se deliciar com alimentos ricos nessas gorduras do mal. O cardiologista Raul Dias Santos, diretor da Unidade Clínica de Lípides do Instituto do Coração, o InCor, de São Paulo, diz que o fígado produz cerca de 70% do colesterol necessário para o funcionamento do organismo. E a matéria-prima vem das gorduras saturadas e trans. Só que, quando há excessodessas substâncias, a produção hepática de colesterol aumenta tanto que o órgão não precisa mais retirar porções de LDL da corrente sangüínea. E aí essas frações ruins do colesterol ficam dando sopa na circulação e ajudam a entupir as artérias. A dislipidemia, que no jargão médico significa o aumento do mau colesterol LDL e a diminuição do benéfico HDL, leva a um processo inflamatório, entre outras coisas. E, quanto mais inflamação, maior o risco de formação e rompimento das placas de gordura no interior das artérias, a aterosclerose. "É sabido que tanto as gorduras trans como as saturadas são duas vezes mais potentes para o aumento do colesterol no sangue", diz. Para dar uma idéia do perigo, comer um hambúrguer duplo acompanhado de batata frita um único dia faz você estourar sua cota semanal das famigeradas gorduras trans.
A trans tem mesmo assustado cientistas e médicos, que cada vez mais estudam seus efeitos nocivos. E a indústria de alimentos, para não perder a clientela preocupada em manter longe todo tipo de ameaça, reage investindo em novos ingredientes que substituam a malvada. Essa busca tem ainda outro motivo. Desde agosto, uma portaria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) obriga todos os fabricantes a estampar em seus rótulos a quantidade da gordura em suas fórmulas. Para eles, o grande desafio é encontrar um substituto à altura, ou seja, um tipo de gordura isento de trans, mas com a mesma capacidade de realçar o sabor e dar consistência até fora da geladeira.
Um desses novos parceiros é o óleo de palma, extraído da mesma palmeira que gera o de dendê. "Esse vegetal tem características químicas que permitem transformá-lo em gorduras sem a necessidade de hidrogenação", explica o engenheiro de alimentos Marcello Brito, diretor da Agropalma, a maior produtora do óleo na América Latina. "Um processo sofisticado de fracionamento físico permiteseparar partes sólidas e líquidas, conforme a necessidade do cliente."
Parece que óleos mais saudáveis vêm mesmo para ficar. "Há dois anos usamos o de palma em todos os restaurantes da nossa marca", diz a nutricionista Viviane Braz, supervisora de controle de qualidade da cadeia de fast-food árabe Habib's. Também há a notícia de que a batata frita das lanchonetes pode perder o posto de inimiga número 1. Pelo menos a vendida no McDonald's. Celso Cruz, diretor de compras e qualidade da rede no país, garante que até o final do ano a cadeia vai substituir a gordura parcialmente hidrogenada por um outro tipo de óleo, baixando a concentração de trans para 0,2 grama em cada porção de 147 gramas. Mas não revela o que será usado em suas fritadeiras. "Sem saber, muitos clientes estão participando de testes nas lojas. A maioria não nota diferença no sabor", diz. Celso Cruz garante, no entanto, que sua porção de batata tem 5,9 gramas de trans e não 8 gramas, conforme o ranking elaborado especialmente para SAÚDE! por nutricionistas da RG Nutri, em São Paulo. Vale lembrar que a moderação será sempre recomendada. Mesmo sem trans, frituras são frituras e alguns lanches podem continuar gordurosos e calóricos.
Texto de Cida de Oliveira

Um comentário:

Eunice Spindler disse...

Muito obrigada por esclarecer e alertar as pessoas sobre a gordura hidrogenada. É bom saber que mais gente pelo Brasil está de olho nessa vilã da alimentação contemporânea. Um abraço e a luta continua!!!